Para inspirar pessoas a doar, seja público

Fonte: http://www.givingwhatwecan.org/blog/2013-01-15/to-inspire-people-to-give-be-public

Inspire as pessoas a doar

Inspire as pessoas a doar

Muitas pessoas pensam que seria melhor se os outros doassem mais para organizações sem fins lucrativos, especialmente as mais eficazes. No entanto, nem mesmo ocorre à maioria de nós que algumas pessoas já dão uma grande parte do seu salário para a caridade.

O compromisso público de doar dinheiro, como o compromisso  Giving What We Can pledge, não só divulga informações sobre como é fácil combater a pobreza global com um comprometimento sério, mas que esse comprometimento é o tipo de coisa que as pessoas podem e de fato empreendem. Ao fazer tal compromisso público, nós podemos inspirar outros a doar.

Mas como é que as pessoas ficam presas em uma rotina? Por que será que doar dinheiro não acontece naturalmente? E como declarações públicas ajudar as pessoas a sair dessa rotina?

O efeito do espectador e da presunção do interesse próprio

Primeiro, para entender como incentivar as pessoas a dar, temos de entender por que eles não o fazem já. Há um número de razões, mas uma das mais prevalecentes é o que se chama de o efeito espectador. Exemplos de grupos que falham em responder aos desastres que acontecem bem na frente deles têm sido amplamente observados, e o efeito espectador é ampliado quando o desastre é a pobreza global em um continente ou dois de distância. Porque as pessoas ao nosso redor não estão dando, passamos a acreditar que não temos a responsabilidade de dar também, e temos a certeza de que não gostariamos de ser enganados para contribuir quando ninguém mais está fazendo a sua justa parte.

Desde “O Leviatã” de Thomas Hobbes que ver a natureza humana em termos de egoísmo tem sido comum e persistente (1,2) e, ocasionalmente, esta crença é auto-reforçada (3,4). Por exemplo, as pessoas pensam em incentivos monetários como sendo o mais eficaz para incentivar as pessoas a ajudar os outros, tal como a doação de sangue (5). A crença na eficácia dos incentivos monetários persiste mesmo quando este acaba por não ser o caso (6). Em um segundo exemplo, temos a tendência de sobre-estimar muito a quantidade de pessoas que irá apoiar uma política que os favorece em relação aos outros (5). Como observado por Alexis de Tocqueville, em 1835, “Os americanos gostam de explicar quase todo ato de suas vidas no princípio de auto-interesse” (7).

Isso nos leva a uma suposição natural que doar para a caridade é irracional… ou, pelo menos, à crença de que se outras pessoas não estão fazendo isso, nós também não deveríamos. No entanto, a norma do interesse próprio é em grande parte um mito.

Desafiando a norma do interesse próprio

Isso significa que a norma do interesse próprio tem de ser desafiada, o que deve incentivar as pessoas a rever sua teoria que se baseia no egoísmo da natureza humana e consequentemente se envolver em atos mais altruístas como a doação à caridade. Se estamos interessados em levar as pessoas a doar mais, precisamos abrir as pessoas para a idéia de que a doação de caridade pode ser esperada, e que isso pode ser feito não só através da taxa típica de 1%, mas a taxas de 10% ou muito mais (8). Também devemos desafiar a norma de que a caridade deve ser silenciosa e não falada e, em vez disso, menciona-la abertamente e orgulhosamente (9).

As pessoas tendem a se conformar, tanto intencionalmente como sem intenção, adotando as ações dos outros (4). Eles acabam por discordar, de forma relutantes, a menos que as outras pessoas também o façam. Se a pressão dos pares pode levar estudantes do ensino médio a usar drogas, consumir álcool, ao tabagismo, ou mesmo a abandonar a escola (10), com certeza ela pode impedir as pessoas de doarem.

Por exemplo, tomemos as famosas experiências de conformidade de Solomon Asch. Aqui, as pessoas foram colocadas em um grupo e solicitadas a olhar para uma linha e comparar seu comprimento com o de três outras linhas em um segundo cartão. No final, elas tiveram de indicar qual linha correspondia à altura da primeira linha. A tarefa era extremamente simples, mas se tornou complicada por estar em um grupo onde várias outras pessoas, todas atores do experimento, estarem dando a mesma a resposta errada.

Experimento de Solomon Asch

Experimento de Solomon Asch

Asch descobriu que muitas pessoas se conformam com a resposta errada, mesmo contra sua vontade. No entanto, pela adição de um outro sujeito ao experimento, que iria dar a resposta correta, a tendência para se conformar cai drasticamente, apesar de ainda estarem em minoria aqueles que dão a resposta correta. Tira-se o parceiro, mesmo na metade da experiência com essa mesma pessoa, e a conformidade sobe novamente.

No entanto, dar às pessoas uma forma de escapar da conformidade para com a norma do interesse próprio pode levá-los a aumentar suas doações de caridade. Em um experimento de campo, uma estação de rádio mencionaria a doadores potenciais que um doador anterior havia doado US $ 300. Eles descobriram que isso aumentou as doações em US$ 13 a mais por pessoa sobre a condição de controle, e esses doadores também eram mais propensos a renovar a sua filiação e a doar mais no ano seguinte em comparação com aqueles na condição de controle (11).

Em um outro experimento de campo separado, os doadores deram mais uma estação de rádio quando solicitado um montante que foi maior do que a sua contribuição anterior (12). Por fim, um terceiro experimento de campo descobriu que era mais provável os estudantes doarem para os fundos de alunos quando lhes fora ditos que 64% dos outros estudantes haviam doado, do que quando foram informados de que 46% dos outros estudantes haviam doado (13).

No geral, as pessoas são movidas por ver o que os outros fazem, e podem ser afastadas para longe de normas auto-destrutivas por ver outras pessoas exibirem um comportamento desafiador. Uma organização como a Giving What We Can, tomando uma postura pública em prol da doação pode fazer exatamente isso. Torne públicas as suas doações, e isso multiplicará à medida que inspirar os outros.

Obs: Agradeço ao José Oliveira Stor pela correção desta tradução.

Referências e Notas

(Obs: A maioria dos links abaixo abrem PDF’s)

(1): Barry Schwartz. 1986. The Battle for Human Nature: Science, Morality and Modern Life. Canada: Penguin Books.

(2): Alfie Kohn. 1990. The Brighter Side of Human Nature. New York: Basic Books.

(3): Dale T. Miller. 1999. “The Norm of Self-Interest”. American Psychologist 54 (12): 1053-1060.

(4): John M. Darley and Russell H. Fazio. “Expectancy Confirmation Processes Arising in the Social Interaction Sequence”. 1980. American Psychologist 35 (10): 867-881.

(5): Dale T. Miller and Rebecca K. Ratner. 1998. “The Disparity Between the Actual and Assumed Power of Self-Interest”. Journal of Personality and Social Psychology 74 (1): 53-62.

(6): Nicola Lacetera, Mario Macis, and Robert Slonim. 2011. “Rewarding Altruism? A Natural Field Experiment”. The National Bureau of Economic Research Working Paper #17636.

(7): Alexis de Tocqueville in J.P. Mayer ed., G. Lawrence, trans. 1969. Democracy in America. Garden City, N.Y.: Anchor, p546.

(8): The Giving What We Can pledge requires 10% and this is already shockingly high for most, but people on 80,000 Hours’s member list or among Bolder Giving’s stories donate up to 50% of their income or more!

(9): For arguments along these lines, see my “Charity: Should I Talk About It?”. Of course, I don’t think we should mention it *all* the time — we should recognize when is the time and place, and not be unreasonable. On the same time, we shouldn’t be completely silent. Places like Facebook, personal blogs, and when the topic comes up for conversation all seem like fair game.

(10): Alejandro Gaviria and Steven Raphael. 2001. “School-Based Peer Effects and Juvenile Behavior”. The Review of Economics and Statistics 83 (2): 257-268.

(11): Other conditions were $180, $75, or no prompt about previous donors at all. Jen Shang and Rachel Croson. Forthcoming. “Field Experiments in Charitable Contribution: The Impact of Social Influence on the Voluntary Provision of Public Goods”. The Economic Journal.

(12): Rachel Croson and Jen Shang. 2008. “The Impact of Downward Social Information on Contribution Decisions”. Experimental Economics 11: 221-233.

(13): Bruno S. Frey and Stephan Meier. 2004. “Social Comparisons and Pro-social Behavior: Testing ‘Conditional Cooperation’ in a Field Experiment”. The American Economic Review 94 (5): 1717-1722.

 

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